05 Março

A Psicomotricidade nas Perturbações do Neurodesenvolvimento

As Perturbações do Neurodesenvolvimento são síndromes em que se verificam alterações no desenvolvimento do sistema nervoso central. Manifestam-se na infância e as suas causas são multifatoriais, ou seja, resultam da combinação de fatores genéticos e ambientais. Na prática falamos de crianças que em determinadas etapas de desenvolvimento não mostram competências que era suposto dominarem ou acabam por adquiri-las mais tardiamente do que o expectável. Surgem então dificuldades de adaptação ao envolvimento, pois a criança enfrenta desafios acrescidos para acompanhar os pares e fazer face às exigências do meio em que está inserida. Estas perturbações causam impacto negativo em várias áreas da vida e os seus sintomas podem aparecer nas áreas social, motora, académica, comunicacional, cognitiva e comportamental. Exemplos destas perturbações são:

  • Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA)
  • Perturbação do Espetro do Autismo (PEA)
  • Dificuldade Intelectual e Desenvolvimental
  • Perturbações Motoras (da coordenação, tiques, entre outras)
  • Perturbações Específicas da Aprendizagem
  • Perturbação da Oposição e Desafio.

O diagnóstico (tardio) na adolescência ainda se verifica numa grande percentagem de casos, principalmente quanto à PHDA e à PEA. Há vários aspetos que podem fazer com que os sintomas sejam mais evidentes nesta fase devido a desafios como: a mudança de ambiente escolar, de professores e de pares; a gestão das crescentes responsabilidades de forma mais autónoma; ou o aumento da exigência académica. Para além disto ainda é notória a falta de formação dos profissionais nas escolas e a existência de crenças e mitos muito enraizados na sociedade, atribuindo as dificuldades a fatores temperamentais ou da personalidade da criança.

A Psicomotricidade é uma das respostas terapêuticas que pode ser aconselhada a algumas destas crianças e adolescentes. O trabalho dirige-se não só à aquisição das competências desenvolvimentais comprometidas, mas também à autoaceitação da criança/adolescente e à adaptação aos seus contextos de vida e aos parceiros de interação.

Nas sessões diretas com a criança/adolescente as ferramentas mais usadas pelo Psicomotricista são o jogo, o movimento e até a mediação corporal. Brincar é uma atividade natural da infância e as propostas lúdicas tornam-se mais divertidas. A aprendizagem através do movimento é também mais apelativa para esta faixa etária e partindo do próprio corpo é mais fácil construir uma ação, uma intenção de agir no contexto, o que por sua vez facilita a construção do pensamento (simbólico). Já a mediação corporal possibilita a aquisição do controlo e consciência corporal, tão necessários para sabermos utilizar o nosso corpo em qualquer ação, desde a aprendizagem à interação.

O Psicomotricista trabalha ainda com a família e outros intervenientes dos principais contextos de vida das crianças/adolescentes de forma a compreender a realidade em que estão inseridos e aconselhar sobre estratégias e alterações que podem promover o desenvolvimento.

A Psicomotricidade tem assim um lugar de destaque na intervenção terapêutica nas Perturbações do Neurodesenvolvimento. Apesar disso ainda é uma terapia pouco conhecida dentro de alguns círculos profissionais e vale a pena questionar sobre a sua adequação às necessidades do seu filho.